PAULINHO BILHETEIRO


OBSERVAÇÃO POSTAGEM NA INTEGRA DO JORNAL A RAZÃO

CONTANDO A HISTÓRIA REGIONAL PELA IMPRENSA LOCAL
PERSONALIDADE: PAULINHO BILHETEIRO

Um gigante de alma chamado Paulinho 17/11/2012

Por:


Paulo Neron Rodrigues, 74 anos, conhecido como Paulinho Bilheteiro, fez sucesso no teatro da cidade entre os anos 1950 e 1980. Amigos relembram histórias de vida desse personagem da história de Santa Maria, que ganha a vida vendendo loteria.
Ricardo Ritzel
Paulinho Bilheteiro, uma das figuras mais populares da cidade, também arrebatou plateias no teatro SM
Não existe personagem mais popular em Santa Maria que Paulo Neron Rodrigues, o Paulinho Bilheteiro, de 74 anos. Todos o conhecem na cidade, todos gostam dele, independente de raça, cor, credo ou classe social. Tanto, que há uma palavra que é constante nas declarações daqueles que convivem com essa figura humana ímpar da cidade: um gigante.
O que pouca gente sabe, principalmente os mais jovens, é que aquele senhor baixinho que está sempre alegre vendendo bilhetes de loteria há mais de 50 anos na boca da Primeira Quadra, hoje chamada de Calçadão, tem uma faceta artística singular: entre 1959 e 1983 ele literalmente arrebatou plateias infantis nas peças produzidas pela
Escola de Teatro Leopoldo Fróes, dirigida pelo inesquecível Edmundo Cardoso. Quem recorda desta época é Gilda Cardoso, filha de Edmundo e também atriz da Leopoldo Fróes. “Em 1959, Paulinho começou no teatro com a peça ‘O Casaco Encantado’, encenada no Instituto de Educação Olavo Bilac, e não parou mais. E o sucesso foi tanto com a criançada que ele ajudou, e muito, a formar uma plateia ávida pelo bom teatro na cidade. Paulinho ajudou, com certeza, a construir a história do teatro infantil de Santa Maria”
E pesquisando nos arquivos da Casa de Memória Edmundo Cardoso, Gilda relembra as peças que Paulinho participou, sempre com casa lotada e quase sempre encenadas no Cine Teatro Imperial, Colégio Olavo Bilac e Clube Caixeiral: O Casaco Encantado (1959); Pluft: O Fantasminha (1960); O Cavalinho Azul (1963); Marta Minhoca (1968); A Revolta dos Brinquedos (1971/72); Dona Patinha Vai Ser Miss (1975/76); Marequinha Fru-Fru (1978); Joãozinho Anda Para Traz (1983).
“Ele tinha um carisma especial no palco, tanto que tinha uma legião de fãs. Ele fazia tanto sucesso e com aquele carisma que só ele tem, que as crianças o procuravam na rua, faziam festa para ele. O teatro infantil santa-mariense deve muito ao Paulinho”, enfatizou Gilda Cardoso, já ressaltando que os anos de convivência se tornaram em uma forte amizade herdada dos pais. “O considero um amigo muito especial, fiel e solidário. Ele tem o maior coração do mundo”, concluiu visivelmente emocionada com as lembranças.
Outro colega de Paulinho que não esquece os tempos de teatro amador é Horst Lippold. “Ele é pequeno grande homem de Santa Maria. Dificilmente a cidade terá outra pessoa tão querida como o Paulinho. Nunca ouvi ninguém falara mal dele e nem ele falar mal de ninguém. E no palco ele se transformava em um gigante, principalmente com as crianças. Ele sempre foi fantástico atuando, um palhaço mágico que encantava a todos. Tanto que é um orgulho ter divido o palco com uma pessoa tão carismática”, ressaltou Lippold.
Aglaya Pavani, que foi da Escola de Teatro Leopoldo Fróes na mesma época e companheira de palco de Paulinho, também não poupa elogios ao colega. “Paulinho é, antes de tudo, uma doçura de ser humano e também um gigante no palco. Ele simplesmente encantava as crianças. Me lembro de uma peça em especial, Pluft: O Fantasminha, que ele encarnava um robô, literalmente. Ele simplesmente foi o responsável direto pela bilheteria fantástica que esta peça teve. O próprio Edmundo, nosso diretor, de tão impressionado com o sucesso dele, uma certa noite interrompeu um ato e criou na hora um prêmio especial para o Paulinho.E, além disto, é uma pessoa muito especial. Nunca o vi se queixando de nada e fez também muitas pessoas felizes por estar ao seu lado”, lembrou a atriz.
Quando o juiz do futebol é uma fera
E se no palco, Paulo Neron Rodrigues é uma unanimidade, na vida pessoal também. Suas irmãs mais velhas, Maria de Lourdes e Terezinha Helena, contam que o inicio de sua vida foi muito difícil. Ele perdeu o pai, Lino, quando a sua mãe, Diamatina, ainda estava com três meses de gravidez. A família ficou em uma delicada situação financeira, mas isto não abalou o ainda jovem Paulinho. Com poucos anos de idade, já começou a trabalhar e ajudar a todos vendendo sucos de frutas em partidas do Internacional de Santa Maria e do Riograndense.
Com pouco mais de 13 anos, a vida novamente lhe tirou o que mais amava: sua mãe faleceu. Novamente não se abateu e, junto com as irmãs, refez a vida com muito trabalho, mesmo com poucos anos de estudo que cursou na Escola Duque de Caxias: começou a vender bilhetes da loteria.
“Meu irmão sempre foi muito fechado. Assim como não reclamava de nada, também não demonstrava suas alegrias. Porém, tudo mudou com o teatro. Ele se transformou, ficou mais alegre, expansivo. Acredito que foi neste momento que ele percebeu que era igual a todos nós”, explica a irmã, Terezinha, que atualmente mora na capital gaúcha, mas vem regularmente a Santa Maria para conviver com o irmão.
E assim como teatro foi um marco na vida de Paulinho, ele também dividiu este amor pelo palco com outras duas grandes paixões: a confraternização com seus amigos (que não são poucos) e a torcida pelo Inter SM. Quem lembra é o amigo de mais de 60 anos e também profundo conhecedor da história de Santa Maria, e do futebol santa-mariense, Paulo Cassel.
“Lembro-me do Paulinho, em especial, quando o nosso coloradinho foi pela primeira vez para a Série A do Campeonato Gaúcho, em 1968. Ele passou pela Primeira Quadra com uma felicidade contagiante carregando uma bandeira do Inter SM muito maior que ele. Enorme. Era a síntese do nosso time: pequeno, mas na alma, um gigante. Ele sempre foi um apaixonado pelo coloradinho. Enfim, Paulinho é uma ótima pessoa, exemplar, que todos querem bem. Ele é honesto, trabalhador e cultivou muitos, mas muitos amigos mesmo em Santa Maria” reiterou Cassel.
Sobre as amizades, quem enfatiza a personalidade de Paulinho é um dos grandes ícones do futebol santa-mariense, com passagens memoráveis em gramados da cidade, como também de Porto Alegre,Emil Salamoni. “Há um ditado que representa muito bem o que o Paulinho é: ‘Tamanho não é documento’. O coração e a bondade dele com seus amigos são enormes, gigantescos”.
Salamoni também recorda de um momento inusitado de Paulinho que demonstra bem sua presença de espírito: “Eu e um grupo de amigos sempre jogamos nosso futebol de final de semana no Clube Umuarama, em Itaara. Porém, em um determinado momento, o pessoal ficou meio brabo e as jogadas ficaram mais violentas do que deviam. Não tive dúvidas, falei para todos que no próximo jogo iria trazer uma dupla de árbitros bastante rígidos com a disciplina, sendo que um deles era realmente uma fera e, se fosse o caso, poderia até mesmo bater nos jogadores mais exaltados.
No dia do jogo, momentos antes da bola rolar, já com os times em campo, anunciei a chegada dos juízes. O primeiro era o Saul Macline, conhecido por todos pela rigidez na disciplina esportiva. O outro era o Paulinho, que entrou em campo, apitou o jogo como um profissional e deu um verdadeiro show. Desde então, nunca mais tivemos problemas em nossas partidas”, recordou com saudade Salamoni, também conhecido como Balú pelos seus amigos.
Balú também conta que durante muitos anos o Paulinho Bilheteiro foi o “filho do Papai Noel” para seus netos, sempre esbanjando alegria e uma simpatia ímpar.
Enfim, estas linhas de A A Razão são, na verdade, uma homenagem para Santa Maria, sua gente e sua história, mas principalmente para um de seus filhos mais queridos e bem quisto de todos os tempos: o gigante de alma, Paulo Neron Rodrigues, o nosso Paulinho Bilheteiro.

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